CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO · OROFARINGE, HPV E OUTROS TUMORES

O perfil mudou. E a forma de olhar para essa doença também

Durante muito tempo, câncer de boca e garganta esteve fortemente associado à imagem de uma pessoa mais velha, fumante e com histórico importante de consumo de álcool.

Ilustração da cabeça em perfil com a região da orofaringe em destaque

DR. RENAN LIRA · CIRURGIA DE CABEÇA E PESCOÇO

Esse paciente ainda existe. Mas hoje ele já não representa sozinho a realidade dos consultórios.

O crescimento dos tumores de orofaringe relacionados ao HPV trouxe um novo perfil para o câncer de cabeça e pescoço: pessoas que nunca fumaram, não apresentam histórico importante de consumo de álcool e que, muitas vezes, sequer imaginavam que uma infecção adquirida muitos anos antes pudesse estar relacionada a um câncer na garganta.

O QUE MUDOU

Para 2026, o INCA estima 4.850 novos casos de câncer de orofaringe no Brasil - 3.910 em homens e 940 em mulheres.

Essa mudança torna o diagnóstico preciso e a escolha individualizada do tratamento ainda mais importantes.

HPV E GARGANTA

Mas afinal, o que o HPV tem a ver com a garganta?

Ilustração de partículas do vírus HPV

Provavelmente mais do que a maioria das pessoas imagina.

O HPV é extremamente comum. Grande parte das pessoas terá contato com algum tipo do vírus ao longo da vida e, na maioria das vezes, o próprio organismo controla a infecção sem que ela provoque maiores consequências.

Em uma pequena parcela das pessoas, porém, determinados tipos de HPV de alto risco podem permanecer no organismo. Ao longo de muitos anos, essa infecção persistente pode contribuir para alterações celulares relacionadas ao desenvolvimento de alguns tipos de câncer.

Na cabeça e pescoço, essa relação é particularmente importante na orofaringe, principalmente em tumores das amígdalas e da base da língua.

Ter HPV não significa ter câncer.

Da mesma forma, ter tido contato com o vírus não significa que uma pessoa necessariamente desenvolverá a doença.

NOVO PERFIL

“Mas eu nunca fumei”

Mulher com a mão no pescoço, com expressão preocupada

Essa é uma frase que ajuda a entender por que o câncer de orofaringe relacionado ao HPV mudou parte do cenário da especialidade.

Tabaco e consumo elevado de álcool continuam sendo fatores de risco muito importantes para diferentes cânceres de cabeça e pescoço.

Mas já não podemos pensar que todo paciente com um tumor nessa região necessariamente terá esse histórico.

Os tumores de orofaringe relacionados ao HPV também podem ocorrer em pessoas que nunca fumaram ou que não apresentam o perfil tradicionalmente associado à doença.

E existe outro aspecto importante: entre a infecção pelo HPV e o aparecimento do câncer podem transcorrer muitos anos.

Por isso, alguém pode chegar ao diagnóstico sem se reconhecer naquele antigo estereótipo do paciente com câncer de cabeça e pescoço.

A ausência dos fatores de risco clássicos não significa ausência de risco.

4.850novos casos estimados no Brasil em 2026
3.910em homens
940em mulheres

Fonte: INCA - Estimativa 2026.

Corte da cabeça mostrando a orofaringe, com amígdalas, base da língua e palato mole numerados

ANATOMIA

E onde exatamente fica a orofaringe?

A orofaringe é uma região da garganta localizada atrás da boca. É nela que estão estruturas como as amígdalas, a base da língua, o palato mole e parte das paredes da garganta.

É também nessa região que ocorre a associação mais importante entre HPV e câncer na cabeça e pescoço.

  1. 1Amígdalas
  2. 2Base da língua
  3. 3Palato mole

SINAIS DE ALERTA

Às vezes, o primeiro sinal nem está na garganta

Um caroço no pescoço pode ser uma das primeiras manifestações percebidas de um tumor de orofaringe.

Em outras pessoas, pode aparecer uma dor persistente na garganta, dificuldade ou dor para engolir, alteração em uma das amígdalas, mudança na voz ou até uma dor de ouvido que não encontra uma explicação no próprio ouvido.

Isso não significa que qualquer um desses sintomas seja câncer. Existem inúmeras causas benignas para eles.

O que merece atenção é aquilo que persiste, muda ou não encontra uma explicação clara.

Caroço no pescoço
Dificuldade para engolir
Dor persistente na garganta
Alteração em uma das amígdalas
Mudança persistente da voz

DIAGNÓSTICO

Descobrir o tumor é só o primeiro passo

Depois de identificar uma lesão suspeita, é preciso entender exatamente o que ela é e até onde ela vai.

A investigação pode envolver exame especializado, endoscopia, exames de imagem e biópsia.

Exame especializado

Endoscopia

Exames de imagem

Biópsia

Quando se trata de um tumor de orofaringe, outra informação ganha especial importância: saber se ele está relacionado ao HPV.

Essa avaliação ajuda a compreender as características biológicas da doença, seu prognóstico e as possibilidades de tratamento.

Ou seja: dois pacientes podem receber o diagnóstico de câncer de orofaringe e, ainda assim, precisar de estratégias diferentes.

PROGNÓSTICO

HPV positivo. O que isso muda?

Os tumores de orofaringe associados ao HPV apresentam características próprias.

De maneira geral, determinados grupos de pacientes com tumores HPV-relacionados apresentam resposta ao tratamento e prognóstico mais favoráveis do que aqueles com tumores de orofaringe não relacionados ao vírus.

Mas isso precisa ser interpretado com cuidado.

HPV positivo não significa “câncer leve”.

Localização e extensão da doença, comprometimento de linfonodos, tabagismo, condições clínicas e outras características individuais continuam sendo importantes.

É o conjunto dessas informações - e não apenas um resultado positivo para HPV - que permite compreender melhor cada caso.

TRATAMENTO

Cirurgia, radioterapia ou os dois?

Não existe uma resposta igual para todos.

Essa talvez seja uma das decisões mais importantes depois do diagnóstico.

Dependendo das características da doença, o tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia, tratamento sistêmico ou combinações dessas modalidades.

Cirurgia

Radioterapia

Tratamento sistêmico

Combinações

E escolher não significa simplesmente perguntar qual tratamento “elimina o tumor”.

Como ele vai falar? Engolir? Alimentar-se? Respirar? Como será sua vida depois do tratamento?

Por isso, em muitos casos, a decisão é multidisciplinar e considera tanto o controle da doença quanto os possíveis impactos de cada estratégia.

CIRURGIA ROBÓTICA TRANSORAL - TORS

Quando é possível chegar ao tumor pela boca

A orofaringe é uma região profunda. Durante muito tempo, chegar cirurgicamente a determinados tumores dessa área podia exigir acessos mais extensos.

A cirurgia robótica abriu outra possibilidade para pacientes cuidadosamente selecionados.

Na Cirurgia Robótica Transoral (TORS), os instrumentos chegam à região operada pela própria boca. A visão tridimensional ampliada e a articulação dos instrumentos permitem ao cirurgião trabalhar em áreas profundas, como amígdalas e base da língua.

Isso pode evitar grandes acessos externos para alcançar determinados tumores.

Nem todo câncer de orofaringe deve ser operado. E nem todo paciente que precisa de cirurgia tem indicação de TORS.

A tecnologia é uma possibilidade. A indicação vem primeiro.

Conheça a Cirurgia Robótica em Cabeça e Pescoço →
Esquema da cirurgia robótica transoral, com instrumentos chegando à orofaringe pela boca
Cirurgia robótica transoral (TORS): os instrumentos chegam à orofaringe pela própria boca.

QUALIDADE DE VIDA

Tratar o câncer sem esquecer o que vem depois

Falar.Engolir.Respirar.Sentir o sabor dos alimentos.Alimentar-se normalmente.Voltar ao trabalho e à convivência social.

Quando o tratamento acontece na cabeça e pescoço, essas questões não são detalhes. Elas fazem parte do tratamento.

Por isso, dependendo do caso, o cuidado pode envolver diferentes profissionais, como oncologista clínico, radioterapeuta, fonoaudiólogo, nutricionista, dentista e outros especialistas.

A escolha da estratégia deve buscar o controle da doença e, sempre que possível, preservar funções e qualidade de vida.

O tratamento mais moderno não é necessariamente o mais tecnológico ou o mais agressivo. É aquele que faz mais sentido para aquele paciente.

PREVENÇÃO

HPV também é uma conversa sobre prevenção

A relação entre HPV e câncer de orofaringe trouxe a saúde sexual para uma conversa que, durante muito tempo, esteve concentrada principalmente em cigarro e álcool.

E isso precisa ser tratado com naturalidade.

O HPV pode ser transmitido pelo contato íntimo, inclusive durante o sexo oral.

Casal abraçado diante de um escudo de proteção contra o HPV, com preservativo e vacina

PREVENÇÃO

Vacinação contra o HPV

A vacinação protege contra tipos de HPV associados a diferentes cânceres e funciona melhor quando realizada antes do contato com o vírus.

Ela previne novas infecções - não é um tratamento para uma infecção por HPV já existente.

PREVENÇÃO

Sexo mais protegido

O uso de preservativos e barreiras de proteção durante o sexo oral pode reduzir a possibilidade de transmissão do HPV, embora não elimine completamente o risco, já que o vírus também pode estar presente em áreas não cobertas.

Falar de HPV sem constrangimento também é uma forma de prevenção.

TABAGISMO E ÁLCOOL

E o cigarro? Ele continua nessa história

Continua - e muito.

O surgimento de um novo perfil de câncer associado ao HPV não tornou tabagismo e consumo excessivo de álcool menos importantes.

Eles permanecem relacionados a diferentes cânceres de cabeça e pescoço, especialmente boca, laringe, hipofaringe e também orofaringe.

A combinação entre álcool e tabaco merece atenção especial porque pode ampliar o risco.

“MAS EU SÓ USO VAPE.”

Cigarro eletrônico não é passe livre

Jovem usando cigarro eletrônico, ao lado da ilustração da anatomia da garganta em alerta

O formato mudou, os sabores mudaram e até a maneira como muitas pessoas enxergam o hábito mudou.

O risco não desapareceu porque apareceu um dispositivo eletrônico.

Vapes, pods e outros dispositivos eletrônicos para fumar podem conter nicotina e expor o organismo a substâncias tóxicas. Seus efeitos de longo prazo continuam sendo estudados.

Não se deve simplesmente igualar as evidências de décadas sobre cigarro convencional às evidências sobre vape e afirmar que o cigarro eletrônico causa especificamente câncer de orofaringe.

Mas uma coisa está clara: vape não deve ser apresentado como uma alternativa inofensiva ao cigarro.

OUTROS TUMORES

Orofaringe não é toda a história

Outros tumores também fazem parte da cirurgia de cabeça e pescoço.

Câncer de boca

Uma ferida que não cicatriza, uma mancha diferente, um nódulo ou uma alteração persistente na boca pode merecer investigação.

Língua, gengiva, assoalho da boca e outras estruturas da cavidade oral podem desenvolver tumores com características diferentes daqueles relacionados ao HPV na orofaringe.

Câncer de laringe

A laringe não é importante apenas para a voz. Ela também participa da respiração e da proteção das vias aéreas.

O tabagismo está fortemente relacionado ao câncer de laringe, e uma rouquidão persistente é um dos sinais que não deve ser simplesmente ignorado.

Outros tumores de cabeça e pescoço

A especialidade também abrange doenças e tumores da hipofaringe, glândulas salivares, pele da região de cabeça e pescoço, couro cabeludo e outras estruturas.

“Câncer de cabeça e pescoço” não representa uma única doença nem um único tratamento.

Dr. Renan Lira

EXPERIÊNCIA

Experiência para decisões que nem sempre são simples

O tratamento do câncer de cabeça e pescoço exige conhecimento da doença, domínio das diferentes possibilidades cirúrgicas e capacidade de integrar a cirurgia às demais modalidades de tratamento.

Na trajetória do Dr. Renan Lira, assistência, cirurgia oncológica de alta complexidade, cirurgia robótica, pesquisa e formação de outros especialistas fazem parte de uma mesma atuação.

Essa experiência se torna especialmente importante quando existem diferentes caminhos possíveis.

Porque, diante de um câncer, a pergunta não deveria ser apenas: “É possível operar?”

Entre as possibilidades disponíveis, qual oferece a melhor estratégia para este paciente?

DÚVIDAS FREQUENTES

Dúvidas que costumam aparecer

HPV na boca significa que tenho câncer?

Não. HPV é uma infecção muito comum e, na maioria das pessoas, não evolui para câncer. A associação com câncer ocorre em uma pequena parcela das infecções persistentes por determinados tipos do vírus.

O HPV pode causar câncer de garganta?

Sim. Determinados tipos de HPV estão associados principalmente aos cânceres da orofaringe, região que inclui as amígdalas e a base da língua.

HPV é transmitido apenas pelo sexo oral?

Não. O vírus pode ser transmitido por diferentes formas de contato íntimo. O sexo oral é uma das maneiras pelas quais o HPV pode chegar à boca e à garganta.

Preservativo elimina o risco de HPV?

Não completamente. Preservativos e barreiras podem reduzir a transmissão, mas não protegem todas as áreas de pele e mucosa que podem transmitir o vírus.

Quem nunca fumou pode ter câncer de orofaringe?

Sim. Esse é justamente um dos aspectos importantes dos tumores relacionados ao HPV. Eles podem ocorrer em pessoas sem histórico de tabagismo ou consumo importante de álcool.

Todo câncer de orofaringe precisa de cirurgia?

Não. Dependendo do caso, cirurgia, radioterapia, tratamento sistêmico ou diferentes combinações podem ser consideradas.

Todo tumor relacionado ao HPV pode ser operado com robô?

Não. A cirurgia robótica transoral é uma possibilidade para pacientes selecionados. Localização, extensão da doença, anatomia e demais alternativas terapêuticas precisam ser consideradas.

Um caroço no pescoço pode ser o primeiro sinal?

Pode. Existem inúmeras causas benignas para nódulos cervicais, mas um caroço persistente sem explicação merece avaliação.

Cigarro eletrônico é seguro?

Não. Esses dispositivos podem conter nicotina e expor o organismo a diferentes substâncias tóxicas. Seus efeitos de longo prazo continuam sendo estudados, mas não devem ser considerados produtos inofensivos.

HPV positivo significa melhor prognóstico?

Tumores de orofaringe associados ao HPV apresentam características próprias e, em determinados grupos, estão associados a prognóstico mais favorável. Isso não permite prever isoladamente a evolução de um paciente. Estágio, extensão da doença e outras características continuam sendo fundamentais.

DR. RENAN LIRA

Um diagnóstico não deveria reduzir uma pessoa a um protocolo

Conhecer o tipo de tumor, sua localização, extensão e características biológicas permite compreender as diferentes possibilidades de tratamento.

Na cabeça e pescoço, essa decisão também precisa olhar para aquilo que vem depois: fala, deglutição, alimentação, respiração, aparência, convivência e qualidade de vida.

Por isso, cada tratamento começa com uma pergunta que não deveria ser esquecida:

Qual é o melhor caminho para este paciente?

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